1.11.07

Eva viu a vida


Eva
entre panelas
ganha aspecto de Narciso
e
dorme encolhida
no sofá
que sofre os roncos
da bebida mal bebida
por Eva
que só depois
de muito amar
e filhos ter
descobriu que a vida
é muito mais do que
a tábua de passar.

Aos poetas da praça.

O poeta
na praça
dedilha as cordas
vocais
afinando
um tom acima
seu mais perfeito
verso. Aquele
verso
que em sua poética
pretensão
há-de entornar nos ouvidos
passantes ou parados
da praça
o gosto pálido da vida.

O verso que nem pedra.

Que enfim
inverta os caminhos
desdirecione os ouvidos:

um verso apenas
mais que emenda
e que num primeiro passo
- seguro passo em voz e asco -
expulse da praça
os fervorosos servos de Deus.

Soneto do amor temperado para a musa eternizada



Desde o dia que te comi
não tenho paz, não tenho sossego
e fico intrigado contando nos dedos
as poucas punhetas que nesse tempo bati.

Fito meu pau que já não é o mesmo
parece mais grosso do que no começo
e tua boceta tão rara molhada
hoje só de olhá-la já fica encharcada.

E mesmo quando sem jeito
roço meu cotovelo em teu peito
teu corpo logo se assanha:

decerto é amor que fica
(conheço tuas entranhas
com a palma da minha pica).